Entrevistei Carla Martins, líder da equipe de Arquiteta de Informação da Rede Record e uma das profissionais envolvidas na criação do novo portal de notícias da Record, R7.
Como sempre que é lançado um projeto de alta repercussão todo o mercado manifesta sua opinião. No caso do R7 muitas pessoas falaram que foi realizada uma cópia do G1.
Você poderia falar um pouco sobre a estratégia adotada na arquitetura de informação do projeto?
Olá, Rogério. Antes de mais nada, gostaria de agradecer todas as mensagens que recebi via e-mail, twitter, gtalk e MSN de colegas nossos de profissão.
A segunda-feira após o lançamento da primeira fase do R7 foi recheada de conversas muito ricas. O feedback de profissionais competentes e envolvidos foi impagável! Acabei conversando e encontrando, até, novos talentos! Acredita?
Percebi que a falta de qualidade de nossa lista de discussão, que já foi tão rica e que hoje chega a ser uma local lamentável , acaba sendo compensada por conversas paralelas (por meio de outras ferramentas) riquíssimas!
Ainda bem que alguém teve a sapiência de enviar um tópico uma vez, com a proposta de trocarmos nossos MSNs, quando começou-se a perceber o decréscimo da qualidade das discussões, lembra?
Bom, mas vamos lá. Fui a primeira profissional de desenvolvimento a ser contratada para o R7. Cheguei antes do Diretor de Criação e até do Gerente de Projetos. Esse fato é só um detalhe, mas demonstra a importância que o diretor deposita na nossa área e foi um dos motivos que me fez aceitar a proposta da Rede Record. A AI veio para fazer parte da concepção de tudo, da estratégia, e isso é uma evolução e tanto! Cheguei no começo de junho e o site tinha que ser lançado dia 27 de setembro, por conta do aniversário de 56 anos da emissora. A data não poderia ser negociada e o prazo era extremamente curto.
Ao chegar, o Diretor de Jornalismo já tinha preparado, com seu board, um documento enorme, com mais de 150 slides, cheio de referências, principalmente de sites internacionais, com seus pontos fortes e fracos. A partir daí, estudei o documento e passei a realizar reuniões diárias com eles, cada uma com duração de horas e mais horas, objetivando chegarmos a um escopo para a primeira fase do projeto, que deveria ser desenvolvido em tempo recorde.
Em paralelo a isso, fui elaborando um mapa do site e um fluxograma. Após tudo decidido e o sitemap inicial aprovado, passamos para a concorrência com as empresas terceiras, das quais sairia a escolhida para realizar os testes de usabilidade. Nesse meio tempo, contratei as duas primeiras AI da equipe, que ainda vai crescer bastante. Realizamos Card Sorting com 32 usuários e, com os resultados, alteramos o sitemap para a sua versão final, reduzindo as cinco grandes áreas do portal para quatro, bem como reagrupando algumas seções e mudando outras de lugar. A partir daí, partimos para a elaboração dos wireframes, que era apresentado e aprovado por pacotes.
Utilizamos a função de compartilhar arquivo do Axure, para que pudéssemos trabalhar ao mesmo tempo nos wireframes. Paralelamente a isso, participava de reuniões frequentes para a escolha do fornecedor do CMS, que teria que customizar a ferramenta para as nossas necessidades. Ao mesmo tempo em que o layout era feito sempre respeitando a AI, à base de muita conversa e parceria entre os DAs e a nossa equipe, e que orientávamos a equipe de desenvolvimento como um todo, ajudávamos a empresa contratada para fornecer o CMS com os requisitos e regras de negócios.
Acessibilidade e SEO também foram pontos bastante priorizados. Depois vieram os testes de Análise de Tarefas, que fizemos internamente mesmo, por conta do prazo, que corria. Fora isso, o background dos jornalistas e a experiência com a audiência que eles trouxeram foi de grande ajuda!
Para pensarmos o portal, levamos em consideração que o site precisava ser fácil de navegar, fácil de carregar, fácil de ser encontrado pelos mecanismos de busca, rápido, intuitivo e, do ponto de vista da redação, com níveis de customização e liberdade aceitáveis.
Além disso, precisava orientar a todo momento onde o usuário está (porque o portal é grande, mas será muito maior) e ter muito espaço para apelo visual, pois um dos objetivos é falar de maneira especial com a camada mais popular da sociedade, em termos de linguagem, ferramentas e tal. Muitos infográficos, sobre assuntos do dia-a-dia, muita foto, glossários, agendas e páginas especiais de serviços são alguns exemplos.
O site ainda terá outras fases de implementação e possui, em seu guarda-chuva, muitos outros sites e portais. Por isso, teve que ser desenvolvido de uma maneira a comportar atualizações e constante mudança de manchetes e forma de apresentá-las, outra característica marcante do R7: atualização minuto a minuto (por isso a contratação de tantos jornalistas).
A Globo.com talvez tenha criado uma tendência de estrutura e navegação em sites de notícias. Como foi o pensamento de mudança nesse sentido?
Não fizemos o portal pensando no que iríamos mudar, simplesmente para dizer que mudamos e que somos “diferentes”. A mudança no cenário da internet vem com o tempo, com as atualizações do site, as demais fases, o tipo de conteúdo, a integração entre TV e internet. Quem pensou que veria um menu no centro da página girando, com um fundo roxo e bolinhas amarelas piscando, sinceramente, subestimou demais a palavra inovação que foi utilizada na campanha de lançamento.
Só um profissional incompetente e inconsequente faria diversos testes de usabilidade, com modelos mais tradicionais e outros totalmente inovadores, avaliasse os resultados, notasse que o modelo tradicional foi muito mais aceito e considerado confortável para os usuários navegarem e optasse pelo “inovador”. Fizemos testes e são eles que devemos seguir, afinal, opiniões não têm embasamento científico. Inovar para ninguém usar não era o caminho e nem o nosso objetivo, vale ressaltar.
Realmente li muita gente, usuários comuns que não trabalham com internet, falando que acharam o site parecido com o da Globo, alguns falaram sobre iG e muitos falaram do G1. Mas eles são usuários comuns. Viram uma home branca, com cores dividindo as seções e menu vertical e não passaram disso em suas análises. Não viram as páginas internas, as homes de seções, a parte de vídeo, a home da Rede Record. O portal não é só a home, que foi pensada levando em consideração dezenas de fatores e a vontade dos usuários testados, acima de tudo. Agora, os profissionais de internet que disseram ser o R7 uma “cópia descarada” do G1 é que me assustam.
Para quem não sabe, os portais de notícias que existem hoje também são baseados em referências, convenções e tendências. Esses dias, postei algumas dicas sobre isso (link: http://www.carlamartins.com/blog/2009/09/10-dicas-para-melhorar-a-usabilidade-de-ambientes-digitais/). Analisando o texto (originalmente em inglês), nota-se que as convenções estão aí, e fizemos sim uso delas. para mim, isso é um ponto positivo e não negativo.
Se lembrou algum outro site, é porque esse mesmo site também utilizou as convenções. Entre essas dicas posso citar: Tamanho da caixa de busca, Espaços brancos melhoram a compreensão, Design clean. Isso não foi descoberta de nenhum portal brasileiro, isso já vêm sendo utilizado há tempos e tem livros e livros, artigos e artigos que tratam do tema. Então, não foi nenhum site que ditou o layout do R7 e, sim, as boas práticas, as convenções, nossos testes, nosso background e todos os estudos que realizamos.
Sendo o Design uma ferramenta dentro da Arquitetura de Informação, porque não procuram inovar nessa questão? Talvez fazer um projeto mais minimalista?
Acho que essa resposta já foi discutida acima. Pensemos que um portal desse tanmanho precisa ser atualizado via sistema de administração, os itens de menu, no R7, também são dinâmicos, ou seja, podem ser criados ou excluídos do menu, dependendo da permissão do usuário. Esse é apenas um fator que foi determinante, por exemplo, para termos decidido planejar um menu vertical. Um site como esse não deve ser pensado apenas para ficar bonito e ser fácil de navegar para os usuários, ele deve, também, ser “atualizável” de maneira satisfatória e eficiente. E disso dependem muitas decisões tomadas na fase de AI. E no meio de tudo isso, falar apenas de inovação e ineditismo é a provar de que a grande maioria dos críticos entende muito pouco de um projeto como esse.
Houve alguma pesquisa de mercado antes da criação do portal? Utilizaram alguma outra metodologia de um projeto centrado no usuário?
Sim, houve pesquisa de mercado. Sobre testes, fizemos Card Sorting, Análise de Tarefas e, agora, estamos iniciando outra rodada de Análise de Tarefas. O próximo passo será estudo de Eye Tracking. Além disso, analisaremos e estudaremos constantemente as métricas do site.
Vocês utilizaram o WordPress como gerenciador de conteúdo? Como foi o treinamento dos jornalistas que atualizam o site?
Não, apenas para os blogs. O treinamento dos jornalistas para a utilização do CMS foi intenso, levou várias semanas e foi apresentado em módulos, para cada equipe em separado, já que cada seção tem suas particularidades. Acompanhei os treinamentos, tirei algumas dúvidas dos jornalistas sobre as possibilidades do sistema e, como não tivemos prazo suficiente para elaborar a AI do CMS, acabei estudando o CMS, percebendo alguns itens que tinham pouca usabilidade e solicitando correções. Devido ao prazo, nem todas puderam ser realizadas antes da estreia, mas já estão em andamento.
O que podemos esperar em termos de evolução do portal. Teremos uma grid fechada para cada programa?
Não posso dar muitos detalhes sobre isso. O que posso adiantar é que estamos estudando e elaborando a AI de alguns sites especiais e que, brevemente, todos os sites de programas serão refeitos. O trabalho está só começando, a equipe vai ter que aumentar muito e, até agora, estou muito realizada e satisfeita de ter topado o desafio e, principalmente, de saber que minha equipe também está feliz da vida. Aproveito o espaço para agradecer imensamente a Karin Althuon e a Renata Azevedo, pelo envolvimento, competência e amizade! Uma equipe unida só podia dar nisso.
Nos próximos posts do meu site, vou falar um pouco sobre detalhes da AI do site e postarei fotos dos bastidores e do lançamento do R7. Sobre métricas, posso dizer que os acessos estão ultrapassando, de longe, minhas expectativas. Sucesso total!
Obrigada pela oportunidade, mais uma vez! Sucesso!
Beijos!

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