Estou fazendo uma série de entrevistas com profissionais de Arquitetura de Informação no Brasil. Essas entrevistas têm o objetivo de orientar as pessoas que estão entrando na profissão e aumentar o conhecimento de quem já atua no mercado.
Entrevistei Eduardo Loureiro, Coordenador de experiência do usuário na Mapa Digital, empresa de pesquisa e consultoria em meios digitais. Eduardo Loureiro tem 26 anos e é um profissional especializado em planejar e criar produtos interativos, que proporcionem boas experiências para as pessoas.
Seu trabalho baseia-se na filosofia de desenvolvimento do design centrado no usuário, que engloba diversos tipos de pesquisas, análises e avaliações para alcançar resultados inteligentes e únicos.
O que é Arquitetura de Informação pra você?
Por um lado temos os conceitos básicos que aprendemos ao longo dos vários livros lançados sobre o assunto até aqui, onde a AI é uma das disciplinas que compõe o Design da Experiência do Usuário e é responsável pela organização e estruturação da informação. Mas prefiro conceituar a AI pelo que ela representa no mercado e para o mercado. Uma das coisas mais importantes da AI, ao meu ver, é ter trazido a prática da pesquisa para os projetos comerciais, o que sem dúvida é requisito básico para o sucesso dos mesmos. Mas não só isso, pois a pesquisa é mais que necessária para uma disciplina oriunda de um contexto em que fundamentação é característica básica pra qualquer argumento.
O outro ponto crucial que caracteriza a AI – e com certeza é responsável pelo aumento de sua prática – é a dualidade entre pensar nas pessoas na hora de conceber os produtos, sem esquecer os objetivos estratégicos do negócio. Afinal estamos falando de mercado, empresas e objetivos comerciais. Isso faz com que os arquitetos tenham que ter uma visão ao mesmo tempo holística e profunda de todo o processo. E isso dá a eles capacidade suficiente para pensar em tudo que possa contribuir para melhorar a experiência das pessoas, atendendo ao mesmo tempo os interesses comerciais das empresas. E esse trabalho está longe de ser fácil.
Como Arquitetura de Informação entrou na sua vida e como foi o início nesse trabalho?
Apesar de ter uma mãe formada em Belas Artes e professora de Artes e Desenho Geométrico, a verdade é que até cair de pára-quedas em uma agência web, eu nunca tinha tido interesse pelo assunto. Sempre tive interesse em política, história, ciências sociais e afins e por isso decidi fazer o curso de História. Só que nesse meio tempo acabei indo trabalhar em uma agência web e foi lá que meu interesse pela coisa despertou.
Trabalhei como web designer por um bom tempo, até trabalhar com a pessoa que viria a me introduzir em todos esses conceitos sobre Experiência do Usuário, meu guru Daniel Pádua, um cara ao mesmo tempo insano e brilhante. Daí pra frente meu interesse só aumentou e passei a estudar sozinho sobre conceitos e técnicas de usabilidade. Foi então que descobri o Caio Cesar e o Daniel Alenquer, que estavam começando a organizar uma série de eventos e projetos ligados a usabilidade em Belo Horizonte, dentre eles a Especialização em Design de Interação.
Fazer esse curso que até então era o único sobre o tema no Brasil, coordenado por dois profissionais tão bons, foi inevitável, e foi na pós que pude contextualizar e aprender a aplicar tudo o que vinha estudando sozinho enquanto atuava como web designer.
A pós me fez conhecer a Mapa Digital, uma das poucas empresas especializadas em pesquisa e experiência do usuário em Belo Horizonte, e daí foi um pulo para que eu começasse a trabalhar na empresa desenvolvendo trabalhos de AI e DI para projetos de grandes e importantes clientes. Para mim, a transição do web design para a AI e o DI foi relativamente tranqüila, principalmente porque eu já possuía algumas das características essenciais para um profissional que trabalha com pesquisa e experiência do usuário: Ser detalhista e ter atenção, organização e visão. Hoje coordeno a equipe de experiência do usuário da Mapa Digital.
E as maiores dificuldades no trabalho diário?
Atuar em uma área tão nova traz implicações para os projetos que muitas vezes não são nada agradáveis. Existem os problemas comuns às agências, seja de pesquisa ou desenvolvimento: falta de entendimento nos projetos, briefings enigmáticos, visão imediatista ou limitada de alguns clientes, prazos e orçamentos apertados, etc. Além disso, a maior dificuldade relacionada a trabalhar diretamente com pesquisa e experiência do usuário é a necessidade e a dificuldade de se justificar e argumentar a realização de pesquisas ou mesmo da aplicação dos resultados que elas trouxeram.
Pesquisa tem uma ligação enorme com a academia e isso acaba por gerar preconceitos que na verdade existem pela ignorância em relação ao conhecimento metodológico para a sua realização no contexto do mercado, que sem dúvidas tem foco, conceito, timing e verba totalmente diferentes da academia.
Quais ferramentas você recomenda para a entrega dos projetos?
Depende muito, pois ao trabalhar com pesquisa muitas vezes a única ferramenta utilizada para a entrega dos trabalhos é a de documentação, ou seja, um Word ou um Power Point. Nesse quesito de entrega, utilizamos algumas ferramentas aqui na Mapa Digital: o Power Point para análises em geral, o Axure para wireframes e o Visio para diagramas estruturais e de interação. Porém, no quesito desenvolvimento, criação ou concepção, algumas outras ferramentas também são úteis. Para card sortings online utilizamos o Websort. Para a análise de card sortings presenciais utilizamos a planilha criada pela Donna Maurer
O Survey Gizmo e o QuestionPro são utilizados para pesquisas e questionários online. Também utilizamos e o Snagit para benchmarks. E para testes de usabilidade utilizamos o Morae.
Enfim, existem muitos softwares, que servem para todo o tipo de função e por isso é preciso encará-los como o que são, ferramentas para nos auxiliar em nossos trabalhos e nunca como meios determinantes do nosso trabalho. Como disseram Elesbão e Haroldinho no Design de Bolso “(..) não adianta, não há periférico que dê a você o nível de resposta de um rabisco”.
Como você vê o mercado atual e como ele deverá evoluir?
Para falar a verdade tenho certo receio com relação ao mercado atual, pois apesar do crescimento da demanda e necessidade dos processos de AI, a cultura da pesquisa ainda não está totalmente estabelecida.
E fazer AI sem pesquisa é inserir mais uma etapa nas metodologias de desenvolvimento, sem trazer os benefícios reais de se ter esse passo anterior, ou seja, é uma contradição. Mas, sem dúvida, é inegável o crescimento da preocupação com a experiência do usuário no mercado. De fato a AI tem crescido no Brasil, mas pelo menos por enquanto, muito mais no eixo Rio – São Paulo. É claro que há motivos, afinal as grandes contas de clientes estão nessas cidades. Essas grandes contas fazem girar uma grande quantidade de dinheiro, assim, as agências e produtoras podem se preocupar com pesquisa. Além disso, já existem cursos superiores e de extensão formando pessoas especializadas na área há certo tempo, fomentando um “movimento” em prol da experiência do usuário.
Em Belo Horizonte esse crescimento é bem mais lento, pois aqui a cultura é muito centrada em tradicionalismos e em quantidade, ao invés de inovação e qualidade. É por isso que uma boa e importante parte dos clientes da Mapa Digital são de São Paulo. Mas o cenário vem mudando tanto, que antes só existia uma única empresa que trabalha com UX e usabilidade em Belo Horizonte. Hoje já são três e, além disso, várias agências web tem se preocupado com UX e incluído processos de AI e DI em suas metodologias.
E o futuro de um profissional especializado em Arquitetura de Informação?
Para mim, o futuro dos AIs tende a ser promissor a medida que a cultura de se pensar na experiência do usuário nos projetos aumenta. Contudo, como já aconteceu com o design, se destacar demais também pode ter um lado ruim, com a saturação de profissionais e consequente queda da valorização junto às empresas.
Onde busca referências criativas para o seu trabalho?
Em todo o tipo de lugar. É claro que a web é uma fonte essencial de referências, mas não é a única. Ao trabalhar com AI e DI eu comecei a prestar mais atenção a todo tipo de coisa cotidiana, como meu armário, minha caixa de e-mails, minha agenda, maçanetas de todo o tipo, infográficos de revistas e jornais da TV, com um olhar muito mais atencioso a questões como organização e distribuição das coisas, formas, funções e etc. Esse aprendizado se deve muito também a fotografia, que é um dos meus hobbies, onde eu aprendi que as referências estão ao nosso redor, basta saber enxergá-las.
Gostaria de deixar uma dica para quem está iniciando na área?
Conhecimento conceitual é fundamental nessa área. Afinal, como eu disse, estamos falando de disciplinas com forte embasamento teórico. Mas não falo apenas de aprendizado formal em faculdades ou universidades, pois acredito muito no aprendizado autodidata. Outro ponto é saber de que trabalhar com AI exige que a pessoa tenha uma visão diferenciada e não imediatista das coisas, pois o AI trabalha em uma etapa onde pensar no futuro ao analisar cada uma das consequencias de cada decisão tomada, pode ser crucial para o sucesso de um projeto. Para isso acho que um AI deve procurar desenvolver três características importantes: concentração, visão e comunicação.
Tags: agências digitais, arquiteto de informação, arquitetura de informação, entrevistas, experiência do usuário, pesquisas, usabilidade
Esta entrevista me ajudou muito em um trabalho escolar =)
Faltou o crédito da foto: Silvio Tanaka – http://flickr.com/tanaka